Escola de Folclore, uma realidade em Almeirim

22 12 2010


Pensada à muito tempo, foi criada à cerca de um ano a Escola de Folclore do Rancho Folclórico da Casa do Povo de Almeirim, espaço onde os mais novos possam aprender as danças e os cantares da sua terra e todas as valências tradicionais que fazem parte de uma vivência comunitária.


Embora já existam relatos da existência de grupos de pessoas, que se juntavam e se trajavam conforme a tradição das suas terras, para animarem festas e estarem presentes em eventos a representarem a sua região, antes de 1939, após esta data e com as directrizes de António Ferro, o folclore é aproveitado pelo governo de Salazar como animador do povo, e ao mesmo tempo seria uma forma de desviar as atenções para outros lados e manter o povo contente e feliz. De referir que o Ribatejo, como província, só aparece em 1936.

Mas para Salazar e para o SNI o fundamental era estimular nos portugueses o culto pela tradição e pelo regionalismo, através de várias iniciativas, tais como concursos, exposições, prémios, publicações e promoção turística, sempre enaltecendo a raça e a alma nacional alicerçados pelo ressurgimento do folclore português. E após a Exposição de Genebra de 1935, onde apareceram as bonecas e os bonecos portugueses trajados, só haveria que os multiplicar e os por a dançar e a cantar. Em 1939 António Ferro diz “se o renascimento do Folclore Português não for atentamente vigiado, acompanhando-o, arriscamo-nos a vê-lo morrer, vítima do seu próprio excesso de vida. Estamos assistindo a par desse renascimento a uma invasão do folclore janota, quasi sempre falso”.

O folclore no Ribatejo só teve o seu aparecimento, com grande força, a partir do surgimento da Feira do Ribatejo, em 1954, que após 10 anos passou também a ser Feira Nacional da Agricultura. Em Almeirim, o Rancho Folclórico da Casa do Povo de Almeirim, nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1956, onde três entusiastas se juntaram e começaram por fazer o que tinha que ser feito, a recolha das danças e cantares, que o povo desta terra cantava e bailava nos inícios do século XX.

A Escola de Folclore que se criou em Almeirim é uma aposta da direcção deste grupo, para que se mantenha viva a tradição do nosso povo, não à maneira de António Ferro ou Salazar, mas que possam saber as suas raízes e terem noção do que era antigamente as vivências do seu povo, os seus costumes e porque não as suas origens. Para o Dr. Aurélio Lopes, antropólogo, “uma escola de folclore terá de possuir outras componentes, outras actividades lúdicas, não só cantar e dançar como também todas as valências tradicionais que fazem parte de uma vivência comunitária”. Acrescenta o Dr. António Cláudio “que um povo sem memória é um povo sem alma”.


Ensaio da Escola de Folclore. reportagem

Já vinha um pouco atrasado, das aulas. Parei o carro e comecei a ouvir as vozes da gaiatada , desejosa de começar o seu ensaio da Escola de Folclore. Todas as sextas feiras, por volta das 21h30m, na Casa do Povo de Almeirim, juntam-se mais de 50 crianças, além das mães, pais e avós, famílias inteiras, para ver o seus “rebentos” a dançar folclore. O ensaiador chama todos os miúdos para a roda e divide o grupo em dois, visto serem muitos para dançar todos juntos. Agora fica no estrado o grupo dos mais velhos, potenciais bailadores do Grupo Adulto no futuro.

Começa a dança, e as crianças começam a rodar, algumas cantarolam também os versos do repertório. Esta escola tem uma particularidade, que é a de não ser um Rancho de Infantil, mas ter outras vertentes, como a lúdica, onde irão ser ensinados jogos tradicionais, lenga-lengas, canções de roda, tudo isto já recolhido.

O ensaio continua, sempre com a atenção das pessoas que estão a orientar as crianças, que são elementos do Grupo Adulto. A música pára, um par enganou-se ao virar, o que atrapalhou toda a roda, foi corrigido e recomeçaram com a mesma dança. Entretanto já começa a haver excitação nas cadeiras, onde os familiares comentam a prestação dos seus, (e do outros). O que é normal nestas actividades. Os nossos filhos são sempre melhores do que os outros. Entretanto faz-se um pequeno intervalo para a pequenada beber água e aproveita-se a paragem para retocar umas notas musicais na miúda que canta.

Retoma-se o ensaio com uma dança de roda e ao mesmo tempo entra o outro grupo que tinha ficado de fora na primeira parte. As correcções aqui são mais vezes feitas, visto grupo ser dos mais pequenos. Já se ouve os primeiros acordes do “Mangerico, Revira a Folha”, já estão todos em posição e a dança lá começa. O ensaio da Escola de Folclore está perto do seu fim, e já se vêm os rapazes a prepararem-se para dançar o Fandango, a dança mais tradicional do Ribatejo. São quatro que se preparam. Em público geralmente só dançam dois, mas aqui no ensaio dançam os que tiverem mais jeito, e preparam-se os que estão melhor a dançar. Acabou o Fandango, ouvem-se aplausos por parte dos familiares e presentes, como forma de incentivo aos rapazes.

E assim termina mais um ensaio da Escola de Folclore de Almeirim, com a miudagem toda radiante por terem conseguido evoluir mais uns passes e ansiosos para que a semana passe rápido e volte a sexta-feira para mais um ensaio.

Regressam a casa, depois de um divertido ensaio, e prontas para uma noite de descanso, bem merecido.

Folclore no mundo

Respeitado por uns, despeitado por outros, o Folclore continua a ser uma actividade cultural com bastantes participantes, não só a nível nacional como internacional.

Cada vez mais deixa de ser uma actividade que era considerada de arte menor, para passar a ser de uma importância vital para os povos, porque a identidade de cada um deve sempre ser tida em atenção, visto que um povo sem identidade, sem algo que lhe dê o que foram as suas raízes, de onde vieram, não sobrevive.

Em todo o mundo o movimento folclorista tem uma importância vital no desenvolvimento dos países, e cada vez mais se vê a aumentar o número de Festivais onde se fazem “ateliers” ou “workshops” sobre a cultura de cada país, para que a aproximação seja maior e os povos vivam em harmonia e em paz.

Os principais festivais de folclore realizam-se nos países chamados desenvolvidos, como a França, Suíça, Bélgica, Alemanha, como poderemos constatar no site que recomendo, uma visita, ao CIOFF – International Council of Organizations of Folklore and Folk Arts, www.cioff.org.

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